quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Exposição de Fotografia: Presidência Aberta de Mafalda Capela





«Fomos encontrá-lo, tranquilamente encostado a uma limonada, pescando esturjão nas bordas do Trancão»
(João Gesta, Dorme Cá Hoje, Objecto Cardíaco, 2007, p.58)

Podemos dizer que as fotografias da Mafalda Capela (Porto, 1977) foram feitas para serem vistas como um festim visual, um ofertório de momentos inesquecíveis passados algures no norte de Portugal numa antiga casa apalaçada que serviu de inspiração para a recriação de um cenário idílico, uma espécie de folhetim visual de sabor kitsch, onde se destaca com pertinência a imagem algo irónica duma singular personagem masculina impregnada duma pomposidade melancólica e amável que provoca em nós desde o primeiro instante que a olhamos um sentimento ao mesmo tempo de familiaridade e estranheza. Trata-se duma personagem enigmática, dividida entre um “eu” exibicionista e libidinoso e um “eu” introspectivo mais disposto a mostrar a virtude pública do que a confessar algum vício privado.

Nesta exposição deparamos com uma série de fotografias a cores em que um homem de meia idade, calvo, de óculos de sol e bigodinho preto, parece encarnar o espírito do típico funcionário do Estado ou do empresário de província, ambos ensimesmados e com o ar inofensivo do bom pai de família para quem o “dever” está irremediavelmente antes do prazer. Não deixa de ser curioso o facto desse homem que, além de o vermos sentado numa cadeira no interior do galinheiro ou de tranquilamente segurar ao colo um ganso ou um pato, também se encontrar descalço. Esse pormenor insignificante do pé descalço leva-nos a pensar numa passagem do Amor Louco de Breton: «A pique por sobre o abismo, construído como uma pedra filosofal, abre-se o castelo estelado».

Numa outra série de fotografias desta exposição deparamos com uma personagem excêntrica, embora estejamos na presença da mesma pessoa que aparece em diferentes contextos. Trata-se dum conjunto de retratos também a cores, encenados num estilo softcore em que a indumentária assume um papel crucial na caracterização da personagem, um suposto sibarita que, posando diante da câmara e rodeado por uma atmosfera assumidamente kitsch, se entrega com devoção a alguns devaneios voluptuosos usando para o efeito diversas roupas e chapéus, bem como objectos de adorno de conotação fetichista como um espanador, um ramo de flores ou um galo de louça envernizado. Há em todas estas imagens um elo afectivo com a casa como espaço de representação da ordem familiar e patriarcal. Tanto o jardim como o pátio do galinheiro ou o salão da casa fazem parte dessa constelação familiar e afectiva que, entretanto, foi tomada de assalto por um bloco de imagens de conteúdos político-sexuais mais ou menos explícitos que fazem pensar num teatro de situações próximo do imperativo da beleza convulsiva defendida pelos surrealistas. As fotografias da Mafalda Capela fazem parte desse universo marcado pelo contraste entre realidade e absurdo, onde corpo e imagem se cruzam num ritual barroco de cenas burlescas em que perpassam os ecos de Buñuel, Pacheco, Breton e Cesariny à maneira dum poema visual fotografado na praia da imaginação, bem dentro do coração daquilo com que sonhamos e amamos.
(Carlos França, Novembro de 2008)




Mafalda Capela nasceu no Porto em 1977. Licenciou-se em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde completou, em 2007, uma Pós–Graduação em Animação e Mediação Sócio-Cultural. Nesta exposição deparamos com uma série de fotografias a cores em que um homem de meia idade, calvo, de óculos de sol e bigodinho preto, parece encarnar o espírito do típico funcionário do Estado ou do empresário de província, ambos ensimesmados e com o ar inofensivo do bom pai de família para quem o “dever” está irremediavelmente antes do prazer. (...)

Inauguração: 09 de Outubro 22hh00 - Até 10 De Novembro
Local: Galeria - Piso 0
Entrada Livre

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